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25 anos de “Sunny Days”: quando Shawn Michaels passou do limite

Desde que voltou de sua primeira aposentadoria reconvertido ao cristianismo, em 2002, Shawn Michaels deixou claro que condenava suas polêmicas ações da década anterior. Desde que chegou à World Wrestling Federation (WWF) em julho de 1988, Michaels traçou um caminho de talento, drogas e traições, chegando ao topo dos cards durante a New Generation, período de recessão financeira da companhia, conquistando o cinturão da WWF em 31 de março de 1996, durante o WrestleMania XII, contra seu arquirrival Bret “Hitman” Hart.

A disputa entre Michaels e Hart se estendia há anos, na frente e por trás das câmeras da WWF. Os dois, que tiveram uma primeira rivalidade relevante pelo título intercontinental em junho de 1992, não escondiam seu desprezo real um pelo outro. Ambos disputavam a mesma posição no topo da WWF e representavam visões opostas sobre o futuro da luta-livre: enquanto Shawn via Bret como um tradicionalista turrão preso em fundamentalismos ultrapassados, Hart via Michaels como um festeiro irresponsável, egoísta e desrespeitoso, despreocupado com a boa condução dos negócios. De certa forma, os dois tinham suas razões, ainda mais em disputa pela posição de mais destaque na companhia.

A relação entre os dois se tornaria insuportável com o passar dos anos, envolvendo também membros e agregados da família Hart e os inseparáveis amigos de Michaels, o Kliq. Na chefia da WWF, Vince McMahon favorecia Shawn Michaels, ainda mais após Hart começar a flertar com a rival World Championship Wrestling (WCW). A relação explodiria em novembro de 1997, com McMahon se envolvendo em uma conspiração para tirar o cinturão da WWF de Hart ao vivo no pay-per-view Survivor Series, durante uma luta contra Michaels. O evento ficou conhecido como o Montreal Screwjob e acabou com Michaels fugindo da arena e Hart cuspindo no rosto de Vince, destruindo equipamentos ao redor do ringue e sinalizando com os dedos que iria para a WCW.

Se a explosão aconteceu em novembro, uma importante fagulha foi acesa em maio, quando Shawn Michaels interrompeu um discurso de Bret ao vivo, durante o Monday Night Raw, para chafurdar na lama.

No ringue, com Owen Hart, Jim “The Anvil” Neidhart, Brian Pillman e The British Bulldog, da Hart Foundation, Bret Hart anunciou que retornaria de sua lesão no joelho e desafiou Shawn para uma luta no pay-per-view King of the Ring com a estipulação de que, caso Michaels sobrevivesse mais de 10 de minutos no combate, Hart nunca mais lutaria nos Estados Unidos.

Sabe de uma coisa?”, interrompeu Shawn, no telão. “Você fala deste negócio de liberdade de expressão e semana passada você falou tanto que saímos do ar ouvindo você falar. Mas vamos direto à luta, vamos direto ao desafio. Bret, no último WrestleMania, você não pôde me derrotar em 60 minutos. O que te faz pensar que conseguirá fazê-lo em 10? Eu sei o que é. É essa gangue ao seu redor. É isso. Eu sei que mano a mano, você não teria chance. Sabe de uma coisa, Bret? Eu quero todos os seus garotos lá. Eu quero a sua equipe inteira lá, Bret.

Após ouvir do Hitman a confirmação de que toda a Hart Foundation estaria no King of the Ring, Michaels continuou, propondo que, para a luta, os quatro membros da Foundation fossem algemados a um poste. “Você não duraria 10 minutos em nenhuma situação, se é que você me entende”, continuou.

E ainda que, ultimamente, você tenha tido dias ensolarados, meu amigo, você ainda não consegue finalizar o trabalho.

Shawn Michaels, Monday Night Raw, 19/05/1997

O comentário aparentemente comum causou ainda mais raiva em Hart. “Dias ensolarados”, “Sunny days” no original, é uma referência a Tammy Lynn Sytch, que atuava na WWF como Sunny. Ao vivo na televisão, Michaels sugeriu que Bret Hart, casado e pai de quatro filhos, estaria tendo um relacionamento extraconjugal com Sunny.

Sytch mantinha desde o Ensino Médio um relacionamento com o lutador Chris Candido. Os dois trabalharam juntos na WWF, mas, sete meses antes, Candido havia deixado a companhia pela Extreme Championship Wrestling (ECW) após se tornar uma das vítimas do Kliq de Shawn Michaels, que usou sua proximidade de McMahon e posição no elenco para enterrar a carreira de Candido. Seus amigos Bam Bam Bigelow e Shane Douglas também sofreram com as mesmas ações.

A infidelidade de Sunny era de conhecimento comum nos bastidores. Até o próprio Candido sabia e, segundo Paul Bearer, ao ser confrontado por permitir os relacionamentos extraconjugais, teria dito, melancolicamente, “Mas Percy, eu a amo“. O mais famoso dos affairs de Sunny foi com o próprio Shawn Michaels. Em uma entrevista para a Kayfabe Commentaries, Sytch também admitiu um affair na época com o cunhado de Hart, “British Bulldog” Davey Boy Smith, e se disse como um dos principais motivos do ódio de Michaels por Bret.

Eu era uma grande fonte da desavença entre Shawn e Bret porque Shawn pensava que eu estava transando com Bret, mas eu não estava. Bret e eu éramos apenas bons amigos. Boa parte da rivalidade entre os dois era por mim. A família Hart me adorava.

Sunny, YouShoot, 2012
Shawn Michaels e Sunny em 1997

Em seu livro “A Star Shattered: The Rise & Fall of Wrestling Diva”, Sunny detalhou que o romance com Michaels durou nove meses e que, durante sua passagem pela WWF, enquanto ela era a única mulher no elenco da empresa, ela teria um vestiário próprio. Bret Hart, no topo da companhia, passaria a usar o vestiário de Sunny, com os dois tendo diversas conversas e saindo quando um dos dois iria trocar de roupa. Logo, a amizade deu lugar à confiança e Bret passaria a deixar seus quatro filhos sob a tutela de Sunny quando eles visitavam eventos da WWF. Logo, ela se aproximaria dos Harts, aprendendo até mesmo o aperto de mão secreto da família.

Naquela noite, em maio de 97, Shawn e Sytch já estavam separados: e Michaels tinha certeza que Sunny estava com Hart. Segundo o livro, Sunny só ficou sabendo do discurso de Michaels no dia seguinte. “É claro que isso enfureceu Bret – é exatamente isso que Shawn queria. A família de Bret sempre assistia ao programa e gostava muito de mim. Bret ficou chocado.

Aparentemente, Bret não entendeu a alfinetada de imediato, sendo confrontado por seu pai, Stu Hart, em Calgary. “Quando eu cheguei em casa, Julie [então esposa de Bret] e Stu estavam bravos por conta do comentário da Sunny, mas foi apenas quando Dallas [segundo filho de Bret, então com 12 anos] e seus amigos da escola me perguntaram se eu estava fazendo algo com a Sunny que eu percebi que Shawn havia machucado minha família. Na época, o código de honra da luta-livre ainda estava claro: nenhum homem machuca a família do outro. Jim Ross me telefonou em casa para se desculpar em nome do escritório e prometeu que o comportamento antiprofissional de Shawn seria resolvido. Eu já havia ouvido aquilo antes“, escreveu Bret em seu livro “Hitman: My Real Life in the Cartoon World of Wrestling”.

Bret tinha filhos que eram espectadores assíduos do Monday Night Raw […] Eu ligo pra isso, Conrad, de verdade. E sendo diretor de relacionamento com o talento, eu tinha que lidar com esses problemas. O que eu digo para o Bret para ele acalmar sua esposa? […] Eu tenho certeza que ninguém riu mais deste comentário do que Kevin e Scott, em Atlanta [Nash e Hall, ambos amigos íntimos de Shawn, então na WCW].

Jim Ross, Grillin’ JR

Em junho, Bret e Shawn brigaram nos bastidores, agarrando e arrancando os cabelos um do outro. Os dois seriam mandados para casa naquela noite. Com o seu comentário sujo, envolvendo uma ex-namorada e seu desafeto, inferindo que um homem casado havia sido infiel em um programa ao vivo, Michaels seguiu esticando a corda de seu péssimo relacionamento com Hart. Ele feriu Sunny, Candido, Bret, sua esposa Julie, seus filhos e os demais membros da família Hart. Criou mais desavenças em público em uma relação já desgastada, que explodiria meses depois em mais uma confusão de ficção e realidade com o Montreal Screwjob.

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