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Caminhos do Dojo #1 | Tudo é efêmero

O século XXI, que começou próspero para o monopólio da WWE após o tremendo fracasso da WCW e posteriormente a aquisição da ECW, segue com mais contradições que certezas sobre o mercado, o produto e o principal: a opinião dos adeptos. E isso vai muito além das relações tão questionáveis quanto polêmicas entre Vince McMahon e Donald Trump, as demissões recentes e a audiência decrescente da WWE nos últimos anos.

Sobretudo a WWE pode ser comparada a um time de futebol com estrutura, torcida e capital, porém dotados de uma aparente incapacidade de boas contratações e um terrível gerenciamento dos talentos que possuí, o que é incompreensível quando se tem tantos recursos á disposição. De fato pouquíssimos talentos têm sido trabalhados ao máximo de suas capacidades e isso tem um peso quando se lida com uma equipe tão grande como é o roster da WWE na composição das suas brands, para não citar o staff. Acrescente a isso shows em praticamente todos os dias úteis da semana e o resultado é previsível e chato de assistir.

Quando você tem a faca e o queijo nas mãos, mas não consegue fazer o serviço correto só há um resultado: insatisfação. Nesse outro contexto os torcedores hipotéticos são os fãs da empresa. Conscientes das excelentes condições estruturais e técnicas da WWE, a possibilidade de adquirir praticamente qualquer top guy do mundo e a condição hollywoodiana de producão para gerar boas storylines com muitas cabeças pensando e trabalhando ao mesmo tempo, não construir um produto de entretenimento aceitável é incompreensível. O segundo resultado ou consequência é pior: a cobrança dos fãs vem á galope.

Os anos 80-90 são os responsáveis por estabelecer a WWE no mesmo patamar de audiência e público da MLB e da NFL – é bom lembrar que a NBA era apenas o terceiro mercado entre os esportes americanos -, claro, sendo o Wrestlemania o ponto alto de algo inimaginável para o sports entreteniment, um fenômeno capaz de superar a World Series e o Superbowl. Na verdade, o Wrestlemania é a World Series e o SuperBowl da WWE, aquele último capítulo da temporada que todos anseiam pelo desfecho. E no período da Monday Night Wars assistir WWF versus WCW era exatamente como acompanhar as finais dessas ligas semanalmente.

Então o que mudou?!

No desporto que tanto amamos há uma realidade bastante frequente: o homem mais bem sucedido não é necessariamente o mais talentoso, aqueles que se destacam ao longo da história são reconhecidos pela perseverança e pelo atrevimento, há uma audácia marcante em cada Andre The Giant, The Undertaker ou Stan Hansen que sobrepõe as qualidades técnicas dos mesmos. O talento é importante, mas os menos dotados compensam a falta de recursos com qualidades distintas a técnica. Porém a recíproca não é verdadeira, ora, há lutadores extremamente bons e sem carisma algum que nunca terão o mesmo êxito daqueles com menos tecnica, porém mais brio e um bom personagem.

Há que se entender que a luta-livre é antes sobre tocar pessoas que o full contact, é preciso que o personagem tenha uma magia real e a storyline um enredo simples, porém instigante e acima de tudo criativo e provocativo. Os heels não causam ódio nos fãs feito outrora e isso é o que se denomina “cold”, algo frio que não causa impacto ou reação em quem está acompanhando.

É assim que lutadores menos dotados de técnica obtém mais aceitação dos fãs que outros tecnicamente mais instruídos. Em poucas palavras, isso significa que o êxito da Attitude Era foi mais em razão das promos, angles e storytellings audaciosos que uma análise técnica e criteriosa daquilo que era apresentado no ringue numa época onde a Internet não existia e muito pouco se sabia sobre a vida dos ídolos daquela geração, o background era convincente e isso bastava.

O que seria dito sobre Ultimate Warrior e Hulk Hogan caso houvesse o advento das mídias sociais naquela altura? Provavelmente as mesmas críticas sobre o in ring de John Cena e Roman Reigns, porém a mesma aceitação de um determinado nicho da audiência. São apenas negócios.

Confirma-se a tese: a qualidade no PW é muito mais que os 15 ou 30 minutos da fall. Até mesmo o MMA tem adotado uma construção de rivalidades quase sempre fictícias e pré formuladas para justificar as suas lutas ainda que reais e isso funcionou para Sonnen, Ronda, Silva, entre outros. Para não falar sobre o boxing, que tem essa prática há ainda mais tempo.

O público da WWE que viveu de perto as glórias dos anos 90 cresceu, o produto acompanhou essas mudanças e delas nasceu a PG Era com o objetivo de explorar o público infanto-juvenil, que representa uma bela fatia da audiência e das receitas na WWE Shop. Entretanto o que Vince e o front office não se aperceberam é que essa é uma geração muito mais difícil de impactar e prender a atenção, não há ingenuidade ou inocência quando basta abrir o Google e há um mundo de possíveis descobertas. Os olhos do The Undertaker não apavoram as crianças de 10 anos mais do que apavoravam os meninos e meninas de 15 anos na WWF.

O produto infanto-juvenil se tornou um paradoxo: excepcionalmente chato para os pré-adolescentes e inevitavelmente decepcionante para os fãs mais velhos. Em outras palavras, os combates perderam em toughness para respeitar a programação PG – mas esse mesmo público tem avaliado tão chato quanto aquela novela reprisada pela terceira vez. Boas storytellings seriam o peso na balança para gerar expectativa nos fãs e não perder a audiência da “velha escola”, mas aquilo que era a especialidade da empresa tem sido justamente o mais desapontante. Há um sentimento comum entre todos que é preciso resgatar um pouco mais de ousadia ou o produto apresentado pela WWE vai se defasar até os restos.

NXT: referência positiva que dá perspectivas

Nesse ponto voltamos ao princípio do artigo: os protagonistas nem sempre são os melhores. Mr. Kennedy, John Morrison, Luke Gallows, são nomes tecnicamente decentes – o Kennedy é definitivamente especial – e personagens com gimmicks acertadíssimas e “uniques”, não há nada parecido no ramo. Agora estamos cá, 10 anos depois de demiti-los a WWE recorre aos mesmos nomes depois de ver-lhes dando tudo no circuito independente (embora Kennedy já tenha partido novamente). O mesmo aconteceu com Chris Jericho, Rey Mysterio e outros nomes marcantes na indústria. Mas para piorar isso não ocorre apenas com repatriados já consagrados, nomes como Roderick Strong, Chris Hero e KENTA passaram pelo menos uma década apresentando o melhor PW do mundo e gozando de carisma e respeito com os fãs, no entanto somente após o auge desses profissionais e depois de trabalhados das formas mais versáteis em outros lugares a empresa de Vince decidiu levá-los ao big stage. E ainda assim sem a menor ideia sobre como trabalhar e adaptar o sucessos nas indys ao produto PG Era.

Apesar da bagunçada equipe criativa que aparenta não seguir algo linear seja no processo de contratação ou construção dos personagens, são esses nomes experientes no circuito independente que tem feito o NXT superar, pasmem, Smackdown e Raw em todos os critérios básicos de avaliação e retorno dos fãs. Entendemos ainda melhor o porquê disso quando lembramos que William Regal é o General Manager e o responsável geral pela Brand amarela; Regal foi quem treinou e graduou alguns dos melhores lutadores do mundo e entre eles Daniel Bryan, ou na época Bryan Danielson. Regal também foi no seu tempo ativo uma das principais referências em submission e match quality do mundo. É claro, nunca chegou ao título mundial na empresa mesmo gozando de muito respeito nos bastidores. Regal parece enxergar o produto ideal ou algo perto disso capaz de resgatar a boa prática do desporto na maior empresa do mundo no ramo, mas o seu envolvimento é limitado ao NXT.

No momento o mesmo acontece com Marty Scurll, Will Ospreay, Zack Sabre Jr, Kyle O’Really, etc, top guys provenientes do mercado americano de indys. Como podem esses nomes listados entre os melhores do mundo terem passado despercebidos ao scout da WWE e notáveis aos olhos de uma organização japonesa? Há falhas graves na forma de condução em Connecticut.

NJPW deu o passo-a-passo

Mudar não é fácil, principalmente quando há velhos hábitos nocivos enraizados numa prática repetiva que se outrora funcionou, agora não dá resultados. Para os hindus esse é um conceito aproximado do carma.

Pois bem, entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2000 a AJPW perdeu 24 dos 26 lutadores para a NOAH após a saída de Mitsuharu Misawa, naquela altura poderia ser o fim se não fosse a prática do DOJO e a capacidade de formar atletas internamente e inseri-los nos eventos como verdadeiros prospectors. Deu certo e a empresa não apenas sobreviveu ao êxodo como serviu de inspiração para a proeminente NJPW, que entrou no novo século com um produto bastante ousado para os padrões japoneses no qual acrescenta mais historias fora do ringue e diversifica as gimmicks unique, uma reflexão que traz á tona gaijins como Dr. Death Steve William e Stan Hansen, que conquistaram o coração dos fãs no mesmo período da Attitude Era nos EUA.

O sucesso foi imediato porquê embora o stiffness característico do Puro Spirit ainda seja a marca registrada da New Japan, entendeu-se que uma boa história transforma uma matche regular em algo extraordinário da mesma forma que uma matche de qualidade perde heat sem um bom enredo que justifique o próximo ato. A New Japan ainda possui todos os elementos do Puroresu, mas queria causar impacto global através das mudanças na psicologia e expandiu o seu produto na direção exata daquilo que a sua audiência quer assistir.

As crianças crescem, as novas gerações são diferentes das anteriores e há que encontrar o ponto de equilíbrio para agradar os fãs mais antigos sem deixar de atrair ferozmente as novas gerações. Há muita técnica, submissions e strong-style, mas também há muito carisma, envolvimento e sobretudo criatividade ao ponto de KENTA x Tetsuya Naito surpreender o mundo com sangue derramado num encontro entre dois dos nomes mais completos do mundo. Causa impacto, não é?

Se 10 anos atrás as gimmicks eram uma excentricidade dos gaijins, na atualidade os fãs tem se deliciado com a arrogância de Okada, a determinação de Naito e a fantasia de Jay White – um americano que tem sido trabalhado na empresa desde 2017 e hoje logra êxito ao ponto de haver conquistado o IWGP Heavyweight Championship. Será que na WWE Jay White seria apenas um heavyeweight mid-card ou nem tanto? O fato é que White também passou despercebido pela WWE, mas ano passado ficou na 12a posição do ranking PWI 500. Seria redundante citar outra vez Marty Scurll, Zack Sabre Jr, Will Ospreay, etc.

Porém os nipônicos também tem decisões delicadas a serem tomadas, entre elas manter-se fiel ao strong-style ou evenderar de vez ao “sports entertainment”, talvez por isso mesmo a New Japan seja tão criteriosa na contratação de gaijins que realmente agreguem ao evento.

Mas há outros exemplos! A Dragon Gate apresenta um misto insano entre lucha, strong-style e spot-monkey muito bem realizado num produto que tem muitas características das federações independentes americanas; a AJPW tem baseado as suas rivalidades nas facções/stables proativas no AJPW B-Banquet. Inclusive a melhor stable do mundo nasceu justamente com gaijins mal utilizados pela empresa americana, é evidente que estamos falando sobre a Bullet Club, uma criação original e assertiva que fez de Bad Luck Fale (Lord Tensai) e Karl Anderson (Luke Gallows) aces na NJPW enquanto Bad Intentions e The Bullet Club, antes de retornarem ao plano de fundo da WWE e acabarem demitidos novamente. Acompanhe o raciocínio, amigo leitor: o mesmo material humano, as mesmas possibilidades, mas uma utilização muito longe do potencial máximo desses atletas demonstrado há pouco tempo em solo japonês.

É importante ressaltar que não há japoneses tão bons no microfone pelo fato das trash talkings e promos não serem trabalhadas igual nos Estados Unidos, porém Okada, Ibushi e KENTA são demonstrações que um trabalho bem feito sempre dá resultados e tem agregado ao melhor que há no mundo da luta-livre. É assim que a NJPW tem feito uma transição fantástica ao abrir espaço para o sports entertainment sem deixar de lado o “fight spirit”.

Eu li algo num grupo e achei sensato: os fãs da WWE não querem outra empresa, mas eles querem uma WWE melhor. Os bons exemplos existem para serem seguidos e na opinião dessa coluna a New Japan é o espelho que a WWE precisa seguir para resgatar a qualidade dos seus eventos com criatividade e coragem.

Os fãs são cada vez mais difíceis de surpreender, é preciso que na falta de boas estórias exista pelo menos mais agressividade nos 4 cantos do ringue; e na falta de match quality, angles menos previsíveis capazes de sobrepor a questão técnica. Os japoneses já percorrem esse caminho com êxito e tem se mostrado a melhor empresa do ramo com perspectiva cada vez mais promissora. Será que os yankees demorarão a escutar os anseios do seu público? O certo é que discutiremos essa questão novamente dentro de poucos anos.

Por João Cerboncini

10 anos atrás assistiu Kobashi vs. Sasaki e nunca mais largou o Puro. Uma mescla de referências literárias e luta-livre. Ou um memorando de Eduardo Galeano e o Lariato de Stan Hansen. Nos caminhos para o dojo tudo é possível!

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