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Caminhos do Dojo #2 | Os 20 maiores gaijins da história – 20°: Eddie Edwards

“Gaijin” é o termo utilizado para designar os estrangeiros de uma promoção japonesa. Os estrangeiros tiveram um grandes papel na construção da identidade e da psicologia do Puro e bem como esse estilo próprio difere do pro-wrestling praticado nos EUA.

O Wrestlemaníacos traz, através desse singelo espaço dedicado aos fãs do strong style, um compilado de histórias e causos protagonizados pelos estrangeiros mais bem sucedidos e influentes desde os anos 50 até os dias atuais. – há nomes que influenciaram diretamente no estilo de luta japonês baseado em grappling e submission ou por haverem sido gaijins pioneiros . — há nomes que pisaram no país das cerejeiras apenas em tours, aparições esporadicas e por curtos períodos (ou part-time), mas que devido a importância no cenário global ou pela qualidade marcaram época e são respeitados até o presente. — há estrangeiros mais reconhecidos no Japão do que no seu país de origem, são nomes que por uma década ou mais tiveram contratos full-time nas suas respectivas promoções.

Mas a nossa lista é apenas uma otima desculpa para entrar no túnel do tempo e relembrar carreiras e encontros marcantes. Sen mais delongas, vamos aos primeiros nomes!

20° — EDDIE EDWARDS

O primeiro nome no hall da nossa lista é muito conhecido pela WIC, sobretudo pelos fãs fiéis da Ring of Honor. Eddie Edwards deu os seus primeiros passos no pro-wrestling ainda no high school, quando se matriculou numa escola de luta-livre gerenciada pelo lendário Killer Kowalski, em Malden, Massachussets. De lá saíram outros nomes notáveis tais como Triple H, Chyna e Perry Saturn.

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Na época Edwards tinha apenas 14 anos e um talento natural fácil de ser notado pelos olhos experientes de Kowalski, logo o canadense se tornou um mentor muito próximo e influente para o garoto que sonhava um dia seguir os caminhos do seu mestre. Segundo o lutador, Killer Kowalski e a sua academia foram fundamentais no seu processo de formação e desenvolvimento:

— Eu, primeiro, tenho formação iniciada por Killer Kowalski, é algo que você precisa mergulhar completamente. (…) Obviamente, quando você começa a treinar, tudo dói. Mas é algo que vai melhorar se você suportar e passar por isso. Fica mais fácil. — relatou ao Pro Wrestling Post.

De fato Eddie Edwards soube observar e absorver, pois levou apenas 3 anos desde a graduação como pro wrestler, a estreia no circuito independente, lutando por promoções do estado e depois por toda New England, até a sua estreia internacional pela Pro Wrestling NOAH, ainda nos primeiros – e mais bem sucedidos – anos da promoção de Mitsuharu Misawa.

Embora não imaginasse, Eddie Edwards estava dando início a mais bem sucedida era da luta-livre independente ao lado de nomes ainda muitos jovens e futuras estrelas do pro-wrestling, alguns deles eram Bryan Danielson [Daniel Bryan], Samoa Joe, Aj Styles, Chris Hero [Kassius Ohno], Davey Richards, etc – todos passaram pelas indys, pelo puro e pela WWE. Os encontros entre esses nomes, por diversas federações, aos poucos criou um forte laço de amizades e alguns dos maiores clássicos dos últimos 10 anos, principalmente no Ring of Honor e na Pro Wrestling Guerilla, mas também na WWE e no Japão.

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CHEGADA AO JAPÃO

O eterno “American Wolf” foi trabalhar no Puro após conhecer um membro do staff da NOAH, logo as referências de lutador técnico convenceram Misawa a contratá-lo. Mas antes de estrear houve um longo caminho de coragem e persistência, Edwards teve um período de meses com treinos físicos coerentes ao estilo de muito contato físico real do Puroresu. Isso significava aprender com professores do nível de Akihiko Ito e Ippei Ota, além de conviver e treinar com Go Shiozaki [formado na mesma classe de 2004-2005], Marufuji, e claro, Misawa.


Go Shiozaki, Akihiko Ito, Ippei Ota, Atsushi Aoki, Shuhei Taniguchi & Genba Hirayanagi

Esse período no Dojo da NOAH foi um divisor de águas na carreira de Eddie Edwards, pois até nos EUA ele nunca mais foi o mesmo. De fato ele ganhou o respeito dos rookies e dos veteranos e depois de algum tempo foi considerado “um deles” [nativos], a prova disso são os inúmeros combates de duplas contra equipes lideradas por Misawa, que escolhia a dedo os seus parceiros e os seus rivais.

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Enfim os primeiros desafios oficiais aconteceram na Shiny Navigation de 2005, naquele tour o lutador americano não obteve sequer uma vitória, mas isso não foi um problema. No ano seguinte Eddie Edwards estava se sentindo em casa e havia estabelecido uma ótima relação com os membros da NOAH, principalmente Bison Smith, e participou dos eventos da promoção durante a primavera e depois retornando no inverno. Durante o verão e o outono fez as suas primeiras participações no ROH, ainda longe do hype que um dia alcançaria.

Naquele período a NOAH priorizava lutas de duplas ou trios e os combates 1 x 1 frequentemente envolviam títulos individuais, então os seus parceiros mais comuns foram Doug Williams e Niguel McGuiness. Edwards ganhava cada vez mais notoriedade e retornaria em 2007 para mais dois tours com o restante do plantel, assim as primeiras oportunidades de título surgiram. Em maio daquele mesmo ano [2007] Eddie Edwards e Ted Dibiase Jr. desafiaram Kentaro Shiga e Kishin Kawabata pelo GHC Hardcore Tag Team Championship, mas não obtiveram sucesso.

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No dia 28 de novembro do mesmo ano Eddie Edwards fez a sua melhor luta de sempre no país das cerejeiras quando desafiou KENTA pelo GHC Super Jr. Heavyweight Championship num combate intenso de 20 minutos, que definitivamente o notorizou e colocou na parte de cima dos cartéis. Na mesma época Edwards se envolveu nos primeiros campeonatos desde a chegada ao Japão, inicialmente alinhado com Ricky Marvin, mas caiu 2 anos seguidos nas semi-finais da Nippon TV Cup Jr. Heavyweight Tag Leagues em 2008 e 2009. Posteriormente [2010] disputou a competição com Roderick Strong, naquela altura velho conhecido do ROH. Foi a melhor campanha de Edwards na competição até hoje, mas na final um novo desaire: derrota contra Atsushi Aoki e o eterno algoz, KENTA.

O excepcional desempenho não passou batido e ambos receberam o Outstanding Performance Award, dedicado a dupla que mais surpreendeu pelo alto desempenho.

Nesse ponto Edwards já era um dos lutadores independentes mais proeminentes e em 2010 seria o primeiro ROH World Television Champion, o que diminuiu consideravelmente a sua participação na NOAH, apesar disso ele seguiu como um dos gaijins mais fortes da companhia. Edwards ficou no “quase” outra vez quando perdeu para Kotaro Suzuki pelo GHC Junior Heavyweight Championship.

Essa derrota afetou a posição de Edwards enquanto contender na divisão Junior e Heavyweight, cada vez mais focado nos ROH ele serviu durante os anos seguintes muito mais para realizar boas apresentações do que brigar por títulos. Exemplo disso foi a parceria com Colt Cabana na Global Tag League 2012, que apesar do fracasso nos resultados rendeu para a dupla o Technique Award.

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Eddie Edwards já estava em contrato de exclusividade com o ROH, mas a sua ótima relação com a NOAH e a parceria de talentos entre as duas companhias levaram o gaijin a unir-se com Bobby Fish e Delirious em duas ocasiões [Nippon TV Cup Jr. Heavyweight Tag League 2012 e Global Tag League] e a disputar a Global League em 2013. Novamente Edwards não obteve o título, mas teve o seu talento reconhecido ao ganhar o Fighting Spirit por 2 anos seguidos e com parceiros diferentes.

Num desdobramento da feud contra os Forever Hooligans [Alex Koslov e Rocky Romero] pelo titulo de duplas do ROH, ainda em 2013, Eddie Edwards e Davey Richards estrearam na NJPW e perderam a title shot válida pelo IWPG Junior Heavyweight Tag Team Championship.

Apesar de não ganhar nenhum dos campeonatos, vitórias contra o campeão e algoz KENTA, e contra Katsuhiro Nakajima, novamente colocaram Edwards na rota do título. Porém rumores que já circulavam há algum tempo se confirmaram e Eddie Edwards assinou com a WWE poucas semanas após a Global League.

RETORNO E FINALMENTE CAMPEÃO

É muito difícil um estrangeiro ser campeão da NOAH, para isso ocorrer é preciso que o lutador tenha alcançado um considerável grau de respeito nos bastidores. Embora tenha se estabelecido como main event da companhia, nos momentos decisivos havia sempre um nativo para superá-lo, foi assim nos falhaços dos campeonatos da divisão de duplas, quando desafiou KENTA, e depois contra Kotaro Suzuki.

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Entretanto a passagem modesta pela WWE e a posição de destaque adquirida no trabalho seguinte pela TNA elevou ainda mais o nome de Edwards, que retornaria a NOAH apenas na Winter Navigation de 2017. No mesmo tour Edwards desafiou Katsuhiko Nakajima, o provável vencedor daquela luta; mas o resultado de 4 anos antes se repetiu e Eddie Edwards se tornou o primeiro gaijin campeão do GHC Heavyweight Championship na história da NOAH.

O reinado de Eddie Edwards teve 118 dias e 2 defesas até Kenoh capturar o cinturão na Winter Navigation ainda em 2017.

Ele ainda desafiaria os AXIZ [Go Shiozaki e o próprio Nakajima] pelo título de duplas antes de retornar a TNA onde atualmente é um dos main eventers da empresa. O último combate de Eddie Edwards no Japão foi no ano passado [2019] na ocasião da parceria entre TNA e NOAH.

CONCLUSÃO FINAL

O começo é sempre o mais difícil, há nomes notáveis que ficarão de fora. O tempo de Eddie Edwards no Dojo até a sua estréia e a construção de um legado respeitado na NOAH fazem dele um gaijin tratado quase como nativo.

Pelo fator técnico, pelo tempo dedicado, por ser o primeiro GHC Heavyweight Champion da historia, Eddie Edwards abre a nossa lista com todo o merecimento. O americano soube como poucos unir qualidade técnica, um bom personagem e um notável espírito de trabalho que nunca passariam despercebidos no país do sol nascente.

Por João Cerboncini

10 anos atrás assistiu Kobashi vs. Sasaki e nunca mais largou o Puro. Uma mescla de referências literárias e luta-livre. Ou um memorando de Eduardo Galeano e o Lariato de Stan Hansen. Nos caminhos para o dojo tudo é possível!

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