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Estamos passando pano para Dustin Rhodes

Atenção: Este artigo contém descrições de casos de violência e abuso sexual e sua leitura pode ser desconfortável.

Em 16 de setembro de 2021, a Vice TV transmitiu o oitavo episódio da terceira temporada da sua série documental Dark Side of the Ring, dirigido por Jason Eisener. Em cada episódio, a equipe esmiúça momentos, eventos e personalidades controversas da luta-livre, como a tragédia da família Von Erich, os assassinatos e suicídio de Chris Benoit e a morte de Owen Hart. O episódio de 16 de setembro, inicialmente, chamou a atenção por sua temática um pouco mais leve do que a dos capítulos anteriores, o “Voo de Avião do Inferno”, tradução livre para um acontecimento conhecido como a Plane Ride from Hell. Até então, o causo havia sido contado de forma anedótica e humorística por lutadores e produtores, tendo sido mostrada em forma de cartum humorístico no WWE Story Time, na WWE Network.

Em 5 de maio de 2002, a WWE encerrou uma turnê de quatro eventos pela Europa, incluindo o pay-per-view Insurrextion, na Wembley Arena em Londres. O voo de volta para os Estados Unidos do elenco e produção em um avião fretado – e com bebida à vontade – se tornou símbolo de uma época desregulada de drogas, álcool e abuso sexual.

Entre as histórias mais leves, está “Mr. Perfect” Curt Hennig e Brock Lesnar fazendo uma disputa de luta amadora próxima a porta do avião, Michael “P.S.” Hayes quase urinando em Linda McMahon e abrindo um corte em cicatrização na cabeça de John “Bradshaw” Layfield e, desmaiado, tendo seu rabo-de-cavalo cortado por Sean “X-Pac” Waltman. Entre as mais pesadas, está o abuso físico, sexual e psicológico sofrido pelas comissárias de bordo durante as sete horas de viagem.

Heidi Doyle e Taralyn Cappellano processaram a WWE dois anos depois pelos acontecimentos, acusando nominalmente “Nature Boy” Ric Flair, Scott Hall e Dustin Rhodes pelo assédio sofrido: negligência, supervisão negligente, abuso e lesão corporal, aflição intencional de angústia emocional e cárcere privado. A WWE chegaria a um acordo com as duas fora dos tribunais e elas permaneceriam em silêncio por quase 20 anos. Até as gravações do Dark Side of the Ring. Apenas Doyle participou do episódio e seu relato, com razão, estarreceu e enojou grande parte da comunidade da luta-livre.

Até então, a história contada aos risos em diversas entrevistas era a que Ric Flair fazia, durante a viagem, algo que fazia com frequência: ficar nu por baixo de seu robe e balançar seu pênis. Mas, durante a entrevista ao documentário, Doyle revelou que as ações de Flair não se limitaram a isso e que ele a teria acossado nos fundos do avião.

Eu não conseguia me mexer. Eu não conseguia escapar dele. Ele estava rodando seu pênis e queria que eu o tocasse… Ele pegou minha mão e a colocou nele.

Heidi Doyle durante o Dark Side of the Ring

Dustin Rhodes a teria salvo da situação, afastando Flair e a “resgatando”.

O caso foi relatado aqui no Wrestlemaníacos na época. Após a exibição do episódio, Flair sofreu uma série de sanções. Sua campanha publicitária com a seguradora CarShield foi pausada (e retomada poucos meses depois), seu tradicional grito de “Woo!” foi retirado do vídeo de abertura dos programas da WWE (algo que ele diz ter sido orquestrado por Nick Khan, presidente da companhia) e sua quase certa ia para a All Elite Wrestling (AEW) não aconteceu. Por enquanto, Flair segue sendo persona non grata na luta-livre, tendo migrado para um podcast caça-cliques. Em seu Twitter, Flair negou as acusações.

Tommy Dreamer, que trabalhava na gestão de talentos na WWE na época, também sofreu represálias por conta do documentário. Durante as gravações, Dreamer defendeu Flair, negando que qualquer abuso tenha acontecido e criticando a decisão das comissárias de bordo de aceitar um acordo com a WWE fora da Corte.

[…] Se é assim que ela se sente, talvez ela não deveria ter aceitado o pagamento e seguido com todo o processo judicial para colocar essa pessoa terrível na cadeia.

Tommy Dreamer durante o Dark Side of the Ring

Dreamer foi suspenso de seu cargo de produtor na Impact Wrestling no dia após a transmissão do episódio. Mas, mesmo com toda a repercussão, um lutador passou incólume pelas alegações.

Entre as histórias que se propagaram com o tempo, estava que a participação de Dustin na confusão estava limitada a usar o interfone do avião para cantar para sua ex-esposa, Terri Runnels. No entanto, o processo movido por Doyle e Cappellano em 2004 traz informações ignoradas pelo Dark Side of the Ring. Segundo o processo, as ações de Rhodes contra a comissária Taralyn Cappellano, que não foi entrevistada para o documentário, são as seguintes:

[…] Runnels agarrou os braços de […] Cappellano repetidamente, perguntou se seus seios eram reais, disse ‘você e eu vamos foder’, agarrou seu traseiro e esfregou sua virilha nela.

Trecho do processo movido por Heidi Doyle e Taralyn Cappellano contra a WWE em 2004

Rhodes, que atua como produtor na AEW e treina lutadoras na escola Nightmare Factory, não sofreu nenhuma represália. Um mês depois do episódio, participou do torneio para definir o desafiante pelo cinturão mundial da AEW, sendo derrotado por Bryan Danielson no Saturday Night Dynamite, em 23 de outubro. Não houve nenhuma nota publicada por Rhodes ou pela AEW por alegações tão graves quanto as feitas contra Flair.

A ausência de Cappellano no episódio da Dark Side of the Ring com certeza deu a Rhodes um presente. Sem ela, que supostamente teria sido abusada diretamente pelo ex-Goldust, Dustin foi descrito como um bêbado chato e, ainda mais, um herói por ter ajudado Heidi Doyle a se livrar de Flair. No entanto, mesmo sem a presença da segunda comissária, era possível levantar este lado da história. Mesmo assim, o abuso supostamente cometido por Rhodes foi omitido e a fala de Doyle o colocando como seu salvador foi mantida.

Nesse caso, é justo questionar a relação amistosa entre a produção do Dark Side of the Ring e a All Elite Wrestling, que tem Dustin como produtor, treinador e lutador ativo, além de ter seu irmão, Cody Rhodes, como vice-presidente executivo. Enquanto nenhum funcionário da WWE participou de entrevistas para qualquer episódio da série, membros do elenco da AEW, como Jim Ross, Jake “The Snake” Roberts, Dean Malenko e Excalibur, foram gentilmente entrevistados em diversos capítulos, enquanto Chris Jericho atuou como narrador da segunda e da terceira temporada da série. É preciso ter o entendimento total do relacionamento entre a Dark Side of the Ring e a AEW e se há uma camaradagem entre as duas empresas.

Ao fim do episódio, Jim Ross, que atuava como diretor de relacionamento com o talento durante o acontecimento e hoje trabalha como narrador na AEW, diz:

Dustin Rhodes é uma das minhas pessoas favoritas no mundo. Nós nos conhecemos há muito tempo. Eu não sei se era apenas consequência do seu divórcio com a Terri ou o quê, mas ele estava em um momento difícil. Mas não é desculpa. […] Eu tinha duas opções: multá-lo, o que ia chamar sua atenção, ou demiti-lo, o que eu achava exagerado e que não precisava acontecer. Foi minha decisão. Ele aprendeu com seus erros, ele era imaturo, ele tinha problemas com abuso de substâncias. E às vezes você podia controlá-lo, às vezes não. Mas o ponto é: nós, como sociedade, temos que parar de ignorar as transgressões dos outros sem punição.

Jim Ross no Dark Side of the Ring

Logo depois, Ross admite que Flair não foi punido, na época, por suas conexões elevadas no escritório e no vestiário.

Ao fim de tudo, nenhum deles foi punido. Flair, quase 20 anos depois, recebeu uma mancha em seu relacionamento com os fãs e alguma perda financeira. Dustin, com ações tão condenáveis quanto, nenhuma. Seja porque a comunidade foi manipulada em achar que ele não fez nada, seja porque a comunidade está mais inclinada a perdoar Dustin do que Flair, mesmo as acusações contra os dois sendo semelhantes.

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