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Na Teia do Aranha #101 – #LutaLivrePorElas

Salve, povo!

Entramos no mês de dezembro deste ano louco e, para que não fiquem de saco cheio de mim, desta vez, abri espaço nesta coluna para a Thabata Costa da Catchmania Network, para falar sobre a campanha #LutaLivrePorElas, que, na última semana, mobilizou vários produtores de conteúdo sobre luta livre no Brasil, para o alerta ao combate à violência contra a mulher.

Leiam, reflitam, comentem e deixem sugestões para próximas reflexões, como sempre.

Forte abraço e valeu!

#LutaLivrePorElas

Faz alguns anos que me envolvi com a produção de conteúdo dentro da comunidade de luta livre. De site em site, de blog em blog, eu passei a escrever colunas dissertando sobre momentos, feuds e storylines, do que eu gostava ou não dos shows. Mas, eu sentia que a recepção das minhas palavras não eram sinceras. Eu era lida, mas não vista. Além disso, conviver nos grupos tanto do Facebook quanto no WhatsApp era um verdadeiro teste de paciência. Comentários machistas, fotos sensuais de lutadoras sendo repassadas e piadinhas infelizes quando uma mulher aparecia na tela do show. Isso sem falar, nos incômodos no chat privado, em que por diversas vezes, tive que responder perguntas como se eu precisasse atestar meu conhecimento. Certa vez, um cara me perguntou porque eu pintei meu cabelo como a Becky Lynch. Eu acho que ele era daltônico, pois de vermelho para laranja tem uma grande diferença. E, embora eu adore a lutadora, meu gosto capilar não tem inspiração no wrestling. O mais engraçado disso é que quando aconteciam grandes debates, normalmente, a minha opinião nem era levada em conta. Era um mar de tubarões que devoravam qualquer chance que eu tinha de falar.

Isso foi me afastando da comunidade, me fazendo emudecer. Até que em um evento de luta livre, eu passei uma das situações mais tensas da minha vida. Um lutador passou a me perseguir, lotar minha caixa de mensagens e não a respeitar meu espaço. A história é longa, com testemunhas e uma resolução da equipe que, hoje, eu considero meia boca. Levou algum tempo para eu entender que não tinha sido culpa minha se ele não podia respeitar meu “NÃO” e eu me dei conta que a nossa comunidade não era confortável a uma mulher. Fosse ela quem fosse. 

Quando eu comecei a trabalhar na Catchmania Network, a proposta para a realização de uma live com participação apenas feminina, surgiu. Eu encabeçaria uma mesa virtual com vozes femininas, entre lutadoras e fãs. Não havia algo que eu pudesse me espelhar. Soube que anos antes algumas meninas tentaram um podcast e a recepção foi quase nula. A chance daquela live dar errado era enorme! Eu morria de medo de ninguém nos ouvir. Não tínhamos nenhum apoio, além de nós mesmas e do restante da equipe. Um belo tiro no escuro. E olha que interessante o que havia naquela pauta: Comentários sobre um suposto cinturão “afeminado” e fotos de uma mulher, em um evento de luta livre, servindo de mesa para uma queda de braço. 

Eu tive um puta orgulho das minhas meninas naquele dia. Mesmo com medo, mesmo sem expectativa de audiência, elas compareceram e não se intimidaram. Todas se sentiram confortáveis para falar o que pensavam, o que a comunidade precisava ouvir. Dois anos depois, eu sinto que aquela live, que aquelas horas em que os homens não foram os protagonistas, foi uma sementinha. Algo que a gente plantou e que até hoje, estamos colhendo frutos. 

Eu passei a me dedicar ainda mais ao meu trabalho dentro da CM e quando sou convidada para uma podcast, uma entrevista ou live, eu procuro reforçar a necessidade de outros sites e blogs a permitirem a integração de mulheres as suas equipes. Também digo, que aquelas que estão me ouvindo (aqui, lendo!), busquem seus espaços. Porque uma vez que a gente descobre do que somos capazes, nada nos para. 

E, sim! O ano de 2020 não foi fácil. A comunidade de luta livre foi chacoalhada com o movimento do #SpeakingOut que até aqui, no Brasil, teve suas denúncias. Não quero me ater às críticas que eu poderia fazer as equipes envolvidas. Quero manter uma esperança de que o episódio serviu como aprendizado a todos os envolvidos. Sei que muita coisa pode não ter mudado, mas foi válido perceber que não se esconde mais o sol com a peneira, que alguém vai gritar e muitos outros vão ouvir.

É importante que o esporte, mesmo sendo de entretenimento, se envolva com o social, de que se debata questões como o machismo, o assédio, como a homofobia, o racismo, a falta de representatividade de povos… A gente não pode achar que por ser esporte, ele não está interligado com a política, que ele não é uma faixa da nossa sociedade, porque ele é. A luta livre é! São indivíduos que coexistem, que se intercalam e convivem em um meio específico, cada um com sua crença, com seus ideais, com sua cultura, sendo necessário buscar um equilíbrio são e inclusivo a todos. 

Aqui chega o verdadeiro motivo de eu ter recebido o convite para assumir essa coluna por um dia. 

A pandemia chocou o mundo. Praticamente, tudo parou. A quarenta nos forçou a nos trancar dentro de casa e nos afastarmos do nosso convívio social. Foi então que eu comecei a perceber, que entre as notícias de vidas sendo ceifadas por um maldito vírus, havia um crescimento de reportagens de casos de mulheres espancadas ou mortas por seus companheiros. Dados apurados pelo projeto de monitoramento “Um Vírus e Duas Guerras”, apontam que, no Brasil, aconteceu um feminicídio a cada nove horas, entre março e agosto deste ano. Se você desdém da palavra feminicídio e acha ela desnecessária, me deixe explicar. Feminicídio trata dos assassinatos cometidos contra mulheres pelo fato gerador do crime é ela ser mulher. Então, nunca mais repita ao seu colega que todo homicídio é igual, ok? Em contrapartida, houve uma queda nas denúncias e isso não tem nada a ver com o fato de que a violência diminuiu. Isso é resultado do confinamento. Porque essas mulheres ficaram refém de seus agressores. Já vi muitos comentários que sugerem que a mulher que apanha e não denuncia é conivente com a situação. Dizem que ela gosta de apanhar. Mas, como se denuncia aquele que te transforma em alguém dependente financeira, emocional e psicologicamente dele? Não dá.

E, sabe quando algo vai te remoendo por dentro e te fazendo sentir incapaz? Foi mais ou menos assim. Até que entre uma discussão de estupro culposo e jogador de futebol sendo justificado mesmo condenado por assassinato, eu achei que não dava para ficar inerte. Convoquei minhas amigas de equipe, contei a elas sobre os meus planos e o #LutaLivrePorElas surgiu. Um adendo aqui: o lado masculino da equipe abraçou a ideia de uma forma tão carinhosa e bonita que eles também merecem um reconhecimento. O obstáculo maior era encontrar mulheres que topassem participar da campanha. Achei que no máximo íamos conseguir 10/12 de nós… Foram 28. Talvez, pudéssemos ser mais, porém entendo o limite de cada uma e isso foi respeitado. 

Chegou o dia do lançamento da campanha e a enxurrada de compartilhamentos, de likes, de entendimento do porque o #LutaLivrePorElas estava sendo levado a mídia, me deixou nas nuvens. A missão era fazer um grande alerta ao combate a Violência Doméstica. Era unir lutadoras, fãs e criadoras de conteúdo em uma causa. Acabou sendo mais. Foi um grito de presença. Foi uma batida no peito, um protesto, foi a afirmação de que nós mulheres existimos na comunidade e que devemos ser valorizadas pelo que podemos agregar a ela.  

Salvo também dizer, que todos os veículos mídia que ajudaram, em especial, os que ampararam a campanha, mostraram a comunidade que podemos ser diferentes, cada um com seu trabalho, mas que todos trabalhando juntos por um bem maior transformamos a concorrência em amizade e apoio.

Encerro o texto e o espaço agradecendo. Primeiro a todas as mulheres corajosas que participaram do #LutaLivrePorElas e do que depender de mim, o movimento não para por aqui. Segundo, ao Flávio Nascimento e ao Fábio Messias, por terem entrado de cabeça e assumido o conceito visual da campanha. Foi mais do que demais! A Catchmania Network, por há um ano, quando tudo parecia perdido, confiou em mim para liderar uma nova história e um novo caminho. A toda equipe que transborda amor. Obrigada também a Wrestlemaníacos, ao Portal da Luta Livre, WrestleBR, Powerbomb Brasil, WCP – Wrestling e Cultura Pop e Enfim Tag Team por terem confiado na proposta e aderirem a causa. Sinto um enorme respeito a vocês e que só cresce a cada dia. Ao João Aranha pela gentileza ímpar de ter cedido seu espaço e me dado direito de expor meu trabalho e minha verdade. 

E a toda a comunidade brasileira de luta livre.

Sigam buscando o melhor.

Somos gigantes.

Thabata Costa.

#LutaLivrePorElas

O dia 25/11 marca o Dia Internacional da Não Violência a Mulher e foi nesta data, que lutadoras, fãs e criadoras de conteúdo da luta livre nacional se uniram para a campanha “Luta Livre Por Elas”. Amparadas pelas equipes Catchmania Network, Wrestlemaníacos, Portal da Luta Livre, WrestleBR, Powerbomb Brasil, WCP – Wrestling e Cultura Pop e Enfim Tag Team, a campanha tem por objetivo alertar e apoiar as possíveis vítimas.

Não se cale.

Denuncie.

Ligue 180.

Por Joao Aranha

Gosto de lutinha a um tempo. Escrevo sobre lutinha a um tempo. Comentei lutinha na TV por um tempo. Ídolo do Rato e do Izac Luna nas horas vagas.

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