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Na Teia do Aranha #77 – Década de 2010

O que fez a diferença?

Salve, povo e pova! Quanto tempo (mesmo)! A vida mudou, mas o que não muda é que vocês ainda continuarão a ter algumas reflexões minhas por aqui (pelo menos, até quando a alta cúpula quiser). Então, para iniciar bem esse ano de 2020, olhei para trás, para a década que passou, e dei uma viajada. Vem comigo? Aproveite a reflexão, comente e sugira outros temas que possam ser discutidos por aqui, ok? Abraços e valeu!

Dias de Luta, Dias de Glória (?)

Sim, eu sei que faz um tempão que não apareço aqui, né? Afinal, a vida adulta grita e trabalho, estudo e casamento (sim, milagres acontecem!) tomaram conta da minha rotina nos últimos anos. Porém, nunca deixei de ver, da maneira que estivesse, a tal da luta-livre, pro wrestling, lucha libre, puroresu ou, pros íntimos, lutinha.

                Além disso, finalizamos mais uma década e, no início dos anos de 2020, podemos fazer aquela reflexão costumeira, e perguntar quais são os momentos mais importantes de nosso esporte na década de 2010. E olha que foi uma década intensa, em vários aspectos. Porém, gostaria de colocar alguns pontos que, a meu ver, definiram os moldes da luta livre nestes últimos dez anos.

                O primeiro deles foi a abertura às mulheres nas grandes empresas de luta livre.  Aí você me chega, e fala: “Ah, Aranha, foi nada disso aí! As mulheres continuam sendo extremamente objetificadas e não é isso que precisamos!”. Concordo. Também vejo que o que se tem está muito longe do ideal (afinal, será que precisamos apelidar de “O Cara” uma das mulheres mais competentes da atualidade, ou ela não seria plenamente capaz de estar no topo com uma personagem forte, destemida, mas que não trajasse nenhum traço masculino para que isso pudesse acontecer?). Mas, o salto de qualidade que foi dado com o simples ato de permitir que elas pudessem mostrar as suas habilidades, ao invés de ficar passeando como valets seminuas e coisas do tipo. Por causa disso, empresas como a STARDOM e a Shimmer – conhecidas pelo público mais fanático – conseguiram ter mais visibilidade por todo o mundo. Sem falar de lutas femininas ganharem o status de evento principal em shows como a WrestleMania. Todos esses são passos inimagináveis a alguns anos atrás e que foram devidamente dados e consolidados. Repito: o caminho ainda é muito longo e o próprio meio não ajuda, tanto na área administrativa quanto os próprios fãs, que desfilam demonstrações de machismo sem precedentes. Mas, podemos dizer que a luta livre feminina é uma realidade muito forte.

                Isso nos conduz ao segundo ponto, que é a ampliação do cuidado com a responsabilidade social, por parte das promoções de luta livre. “Ah, mas só fazem isso por conta dos fãs e por conta do dinheiro que vão perder!”. Se pensarmos que, em anos passados, atitudes e discursos preconceituosos e/ou violentos eram propagados como corretos, alegando que aqueles que se sentiam ofendidos com o que se falavam eram muito sensíveis, testemunhar algumas suspensões e demissões, é algo de grande avanço. Claro que, também neste caso, ainda há um longo caminho a melhorar, mas se alguém, em pleno século XXI, ainda insiste em fazer piada pelo fato de alguém ser homossexual, transformar todas as mulheres (e alguns homens também) em objeto sexual, dentre outros problemas, deve ser, minimamente, advertido seriamente sobre o fato. Além disso, trazer o mundo da luta livre para outros meios, ajudando a quem precisa ajuda e muito na aproximação com outros tipos de público. O esporte precisa ultrapassar as barreiras do ringue e mostrar que é muito mais do que competição.

                Outro ponto é a abertura do mercado mundial de pro wrestling aos fãs. Creio que a maior parte dessa abertura se deve a popularização da internet, com aumento de velocidades de conexão e afins. Mas, isso é algo incrível. Nem preciso ir longe, mas, ao final dos anos de 1990, que foi quando a internet chegou ao Brasil comercialmente, era muito difícil conseguir algo voltado à luta livre que não fosse vinculado ao produto nacional ou à WWE. O fato de ter um chat com comentários ao vivo dos PPVs era um avanço enorme. Hoje em dia, a empresa ou lutador(a) de pro wrestling que não está conectado(a) às redes sociais, assina sua sentença de esquecimento em um curto período de tempo. Então, você pode ser um fã da WWE, mas assistir à BWF, FILL e APW, no Brasil, AEW, ROH, NWA e outros nos Estados Unidos, NJPW, AJPW, Dragon Gate e DDT, no Japão, AAA e CMLL, no México, dentre várias outras que disponibilizam seus conteúdos online. Por conta deste fenômeno, que cresceu assustadoramente na última década, a WWE continua a ser a líder, mas, com certeza, já não é mais hegemônica na preferência do público. O mundo é grande e tem gente muito boa por aí.

                O último destaque da década é o grande aumento de qualidade da luta livre brasileira. E aí, eu não falo somente da BWF, em São Paulo, que lidera esse movimento no esporte nacional. Falo da FILL, no Rio de Janeiro, da NES, em Santos, da Libertas Pro Wrestling, em Minas Gerais, da SWU, no Rio Grande do Sul, dentre várias outras que, como essas que citei, ainda existem ou já encerraram as atividades, mas deixaram sua marca nesse processo evolutivo do esporte no país, que deixou de enveredar para somente uma vertente de luta, mas passou a atingir várias outras, e, principalmente, se preocuparam em tratar o esporte com seriedade. Com certeza esse caminho, que também foi pavimentado por muita vaidade, poderia estar muito melhor do que está atualmente. Mas, parafraseando um jogador de futebol aí, hoje, diante do mundo, já estamos em outro patamar e podemos sonhar, sim, com outros patamares muito maiores que estes. Uma transmissão mensal na TV é um início contagiante, mas que nos diz que o céu nunca será o limite.

                “Ai, mas você não falou da AEW, do CM Punk ou do Kazuchika Okada! Bosta!”. Não falei mesmo, afinal, quando me proponho a falar de pontos que definiram os moldes do esporte, não consigo ver pessoas ou promoções que mudaram a década de 2010, mas de que elas foram fortes contribuidoras para a construção de uma situação maior. Quem sabe, em algum momento, não possa falar sobre a importância deles em específico? Pode sugerir, não machuca. E que venha a nova década.

Por Joao Aranha

Gosto de lutinha a um tempo. Escrevo sobre lutinha a um tempo. Comentei lutinha na TV por um tempo. Ídolo do Rato e do Izac Luna nas horas vagas.

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