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Olga Zumbano, a Rainha do Ringue e a novela com telecatch

Em 1990 o SBT lançou uma novela chamada Brasileiras e Brasileiros, do diretor Walter Avancini. Na trama da novela Angelo, um ex-lutador interpretado por Fulvio Stefanini e o mecânico Totó interpretado por Edson Celulari abrem uma academia de telecatch feminino chamada Duras na Queda, que juntava pessoas de baixa renda na região da Mooca para realizar eventos de luta livre em troca de arrecadar algum dinheiro.

A trama ainda contava com Lucélia Santos, que interpretava Paula Leal, uma arquiteta que se torna dona da academia e forma o casal romântico com Edson Celulari, além de Ney Latorraca, como o vilão Brás, um malandro que abre uma academia rival para atrapalhar os planos de Angelo e Totó e também Antonio Caloni como Plínio, lider da associação de moradores do bairro que querem acabar com a academia junto com Coriolano (interpretado por Laerte Morrone), membro de uma liga conservadora que achava luta livre feminina algo inapropriado.

A novela teve muitos problemas, com muitas alterações de horário (A principio era das 18h, mas passou por 18:30h, 19h e 19:30h) e teve sua trama alterada, com o enredo inicial saindo da luta livre e indo para brigas entre milionários e pessoas de baixa renda. Mas o importante da novela não estava sequer aparecendo nas câmeras, e sim por trás delas: Olga Zumbano, a Rainha do Ringue, era a encarregada por treinar as atrizes que subiriam nos ringues.

Olga Zumbano em luta. Foto: Norbert Franz Novotny

Olga Zumbano nasceu em 1916 em Mococa, interior de São Paulo e cresceu junto de doze irmãos treinando boxe. Tia de Eder Jofre, um dos maiores boxeadores da história do esporte, Olga Zumbano foi casada também com o boxeador austríaco Hans Norbert, conhecido como “A Metralhadora Austríaca”. Foi acompanhando os treinos do marido que Olga conheceu a luta livre, onde começou a treinar com outras mulheres.

Quando voltou ao Brasil abriu uma equipe de telecatch feminino, ainda na década de 50, onde lutou no Brasil inteiro em circos. Na época, o exército achava inapropriado uma mulher lutar, e Olga se disfarçou como espanhola, para seguir nos ringues junto de mulheres de outras nacionalidades que ela conheceu na europa. Seu filho, o cineasta Norbert Franz Novotny falou sobre a carreira da mãe no artigo Combate Coração ao site Vice Brasil em 2010, para o jornalista André Maleronka.

“De volta ao Brasil, Olga conquistou, na porrada e na estrada, o título de Rainha do Ringue (…) afinal de contas o que interessa agora são essas fotos inéditas que Norbert fez de sua mãe, uma mulher forte, corajosa e desbravadora — ou por acaso você acha que era bolinho fazer shows de luta livre nos circos que rodavam o Brasil da década de 40?
Porra, no começo ela teve até que inventar um nome falso de espanhola —”Yo soy Nina Olivera, soy española”, Norbert contou que ela falava pros canas metidos a guardiões da moral que queriam impedir a brasileira de lutar.”

Combate Coração, matéria de André Maleronka na Vice Brasil

“Quando a guerra acabou ela falou para o meu pai, ‘Escuta, não é uma boa levar essas mulheres para o Brasil pra fazer umas exibições e tal?’. E não deu outra. Meu pai fechou negócio com o Ady Berber pra trazer as moças. Eram umas sete ou oito.” O show itinerante lotou circos por todo o Brasil, ganhou capas de revistas e “chegou a ter LP com a narração de uma luta histórica num estádio em Minas Gerais”, conta Norbert. O esquema de Olga e suas comparsas era desafiar os valentões locais— e quebrá-los na porrada, na frente de todo mundo (…) comprou seu próprio circo, terras, carros, apartamentos, e até deu entrada num barco a vapor para subir o Rio Negro —”foi pra Serra Pelada na época do começo do garimpo e voltou de lá com aquelas garrafas de guaraná de dois litros cheias de ouro em pó”. As gringas de sua gangue foram gradualmente substituídas por brasileiras, já que “a austríaca especialista em dar tesoura no pescoço dos homens casou e voltou para casa, a inglesa boa de joelhada desistiu, a cubana foi assassinada”, e acabou por se esfacelar.”

Combate Coração, matéria de André Maleronka na Vice Brasil

As viagens de Olga Zumbano e seu circo ou em outros circos são retratadas em textos por todo o Brasil e podem ser encontrados na internet. Literalmente todo o Brasil. Segue abaixo alguns relatos de lutas de Olga em cidades como Goiânia-GO, Dois Córregos-SP, Capivari-SP e Poços de Caldas, além de outros muitos textos perdidos internet afora.

Em “A Inauguração da Praça Ok, o Telequete e a sova da Olga Zumbano no Golias“, Cleber Ferreira conta um pouco da luta da Rainha do Ringue em Campinas de Goiás, cidade que nem existe mais e foi absorvida por Goiânia, capital do estado. Segue um trecho:

“(…) O Golias já foi logo pra cima da mulher com um dublinelson. Ela levantou os dois braços de uma vez, se abaixou e tirou os braços fortes dele debaixo dos seus e as mãos cruzadas sobre o pescoço, ficaram entrelaçadas sem nada entre elas. Ele voltou bufando para tentar uma gravata, ela enfiou o joelho entre as penas dele com tanta força que o Vitorino Gambá disse: “Vixe capou o homem”. Deve ter doído demais, pois ele embodocou e deu a cara pra ela aplicar uma gravata. Sair que jeito? Ovos doendo e pescoço apertado com a força de um elefante. Já tava roxo, quando o Mestre Crispim mandou parar. (…)”

Cleber Ferreira em artigo no portal Sagres

Em “A Lutadora Machona“, José Nelson Dante conta em seu site Pérolas Dantescas quando Olga lutou em Dois Córregos, no interior de São Paulo. Segue um trecho:

“(…) Pois bem, a lutadora em questão onde inicio meu artigo fez sua exibição num circo. Ela desafiava os homens valentes e forçudos da cidade para lutar, e eles sempre acabavam derrotados e humilhados, dada a habilidade dela. Essa mulher praticava a luta livre ou vale-tudo. Seu nome era Olga Zumbano.
Numa noite ela lutou com o melhor de nossa cidade o Pariba e noutra com o destemido e sacudido com uma força descomunal e uma mão gigantesca o Pedro Trombeta, derrotando ambos, mas não desmerecendo a valentia deles que eram bons à beça na empreitada. Mas ela tinha um treinamento com técnicas para sempre vencer(…)”

José Nelson Dante no site Pérolas Dantescas

No jornal local O Semanário, o texto “Olga Zumbano x Romeu dos Bonecos” conta quando a Rainha do Ringue desafiou qualquer um da pequena Capivari-SP a subir no ringue e enfrenta-la.

“(…) Um desses circos, se não me engano Circo-Teatro Chile ou Circo- Teatro Astúrias, em sua noite de gala, num domingo, apresentou a famosa Olga Zumbano, a “Rainha do Ringue”, tia do grande Eder Jofre.
A luta-livre, tinha, como oponente a Olga Zumbano, uma outra lutadora de fama nacional. Não recordo o nome, mas parece que se chamava “Alice”. Alguns “rondes” e a vitória indiscutível da Olga que, em tom e forma de desafio, mostrava no centro do circo, no ringue, a sua força, musculatura e agilidade que a consagrara. (…)”

Jornal O Semanário

Já no Jornal GGN, o jornalista Luis Nassif relata no texto “A luta épica de Olga Zumbano e Hélio Zoiudo“, quando seu tio foi um dos que aceitou o desafio de enfrentar Olga na cidade de Poços de Caldas – MG.

“(…) Até que um dia chegou o Circo Irmãos Garcia em Poços de Caldas, com um desafio inusitado: uma lutadora mulher desafiando os marmanjos da cidade. Não me lembro se a lutadora era Olga  Zumbano, ou Alice Maluf, as duas campeãs da minha infância.
Olga Zumbano era dos Zumbano, a mais brilhante estirpe de lutadores da história do Brasil. A familia gerou Waldemar, míope no último grau, Ralp, que encantou o país em um Panamericano, Tônico, um boi bravo e o maior de todos, Éder. Mas tinha luz e músculos próprios.(…)”

Luis Nassif no Jornal GGN

Olga Zumbano lutou até os 60 anos de idade e faleceu em 3 de Setembro de 2000, vítima de um ataque cardíaco aos 84 anos de idade.

Esse texto é uma homenagem e também base para o fio que fizemos no Twitter. Além dos textos citados e já linkados na matéria, utilizamos como fonte para a novela Brasileiras e Brasileiros a Wikipedia e a matéria do portal Memória na TV. Sobre a Olga Zumbano, além dos artigos linkados também utilizamos sua Wikipedia e o documentário Quebrando a Cara, do diretor Ugo Giorgetti, que conta a história de Éder Jofre e sua família e que você encontra completo no Youtube.

Olga Zumbano jamais será esquecida.

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