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Opinião – A Wrestlemania do Desrespeito

Esse texto contém spoilers dos combates da Wrestlemania 36 e reflete a opinião do autor sobre o evento.

AVISO: Esse texto contém spoilers dos combates da Wrestlemania 36 e reflete a opinião do autor sobre o evento.

Não estamos em dias normais. Hoje não é uma segunda feira pós-Wrestlemania como todas as outras foram. Estamos longe demais até da época em que o Raw pós-Wrestlemania não tinha a pompa toda que ganhou nos últimos anos. Hoje é pior, é triste. Talvez eu não fale por todos, mas essa não é minha intenção, mas saímos de um dos finais de semana mais vergonhosos da história do pro-wrestling. Seu maior evento foi desrespeitado, seus lutadores foram desrespeitados, seus fãs foram desrespeitados. A saúde foi desrespeitada.

Lave as mãos frequentemente, fique em casa, se proteja. Foto: Min. da Saúde

Olhe pela janela da sua casa, do seu apartamento, do lugar onde você mora. O que está acontecendo lá fora agora é um dos checkpoints da história do mundo. Daqui 1500 anos os dias de hoje podem ser lembrados como aqueles em que a sociedade teve que enfrentar um mal invisível que tem o poder de eliminar cerca 3% da população, como o Coronavirus. Foi assim com a Peste Negra (50 milhões de mortes entre 1333 e 1351) ou a gripe espanhola (20 milhões de mortes entre 1918 e 1919). Com a modernidade e velocidade das informações e de estudos, temos a capacidade de suprimir os números de casos e mortes se todos fizerem a sua parte. Todos estão cientes do que tem que fazer (Caso você não esteja ciente do seu papel na luta do Coronavirus, por favor clique aqui) e o tempo vai cuidar de julgar aqueles que ignoram o momento atual de uma sociedade por completo. É aqui que entra Vince McMahon e sua trupe.

Desrespeitoso e desnecessário. O que se viu ontem no WWE Network é algo que, na minha concepção jamais deveria se relacionar com o que se espera de uma Wrestlemania. A minha primeira lá na 23 me enchia os olhos, com a estrutura, o build up das lutas, as 80 mil pessoas no Ford Field gritando ao ver Batista x Undertaker numa luta que nem foi essas coisas, mas que sem toda aquela estrutura em volta e sem o glamour do nome da Wrestlemania brilhando no alto do estádio, seria completamente esquecível.

Wrestlemania 33
A Wrestlemania 33 é um exemplo de como o publico e stage são elementos importantes e fazem parte da história do evento. Foto: WWE.com

Esquecível, foi isso que a WWE tornou a Wrestlemania de ontem. Num stage que conseguiria competir de igual para igual para qualquer luta da OVW entre The Prototype vs. Leviathan, a WWE simplesmente insistiu em jogar a história de 36 anos de evento no lixo. Começou promovendo shows com um build-up desnecessário e vergonhoso (Fizeram do Raw 3:16 um segmento do Eric Andre Show de cortar o coração de qualquer fã do Steve Austin), mudanças de card sem nenhuma explicação (Braun Strowman foi anunciado como adversário do Goldberg na sexta sem nenhuma palavra de ninguém da WWE, só mudaram a imagem do card e já era), combates péssimos (Já era esperado que a luta do Goldberg fosse péssima, com o Strowman nela mais ainda, mas a WWE conseguiu fazer Becky Lynch x Shanya Baszler gravado ser péssimo, e olha que ela uma das poucas lutas com build-up favorável) e resultados horríveis (Charlotte NXT Womens Champion. Em 2020. Sério.) todos em um evento que pra começo de conversa não deveria nem ter acontecido por questão de saúde pública.

Braun Strowman Wrestlemania
Luta que não existia até sexta-feira, Braun Strowman comemorando seu primeiro título mundial enquanto olha para um monte de nada. Foto: WWE.com

A WWE até se utilizou de elementos bem interessantes para tentar fazer as pessoas assistirem a Wrestlemania: The Undertaker x AJ Styles com o Taker em cima de uma moto nos deixaria completamente ensandecido, e a montagem da luta foi bem interessante. Como fã de NFL que eu sou, ver o Gronkowski ganhando um título no meu esporte favorito em um segment que ainda envolvia dois brasileiros seria uma emoção incrível em outros tempos. A Firefly Fun House foi perfeita para o que se espera de segments envolvendo Bray Wyatt x John Cena. A volta do Edge para a Wrestlemania em uma Last Man Standing Match seria algo que qualquer um que acompanha a WWE desde a década passada marcaria no calendário e esperaria ansiosamente até o dia de poder assistir. Mas a WWE não entendeu que simplesmente não há clima pra se desfrutar isso em meio de uma pandemia, e principalmente, parece ignorar a falta de um dos elementos mais importantes dentro de qualquer esporte: O calor da torcida. O retorno dos Hardy Boyz na Wrestlemania seria a mesma coisa sem as pessoas estourando as cordas vocais de tanto gritar? E o John Cena no Royal Rumble em 2008, fazendo a arena quase desmoronar quando sua musica tocou, que efeito teria se não tivesse ninguém ali do lado do corredor se esgoelando? Ou a entrada de CM Punk na Money in the Bank 2011 para uma Allstate Arena vazia em Chicago, Illinois, que graça teria ouvir This Fire Burns?

Para se fazer uma Wrestlemania, por menor que ela seja, demanda muita gente. Não é Backyward Wrestling com quatro pessoas: Dois lutadores, um juiz e um segurando a câmera. Toda a montagem de estrutura de stage e ringue, equipe de filmagem, movimentação de equipamentos, técnicos de transmissão, equipes de apoio e principalmente, os lutadores. Todas essas pessoas trabalham em funções não-essenciais para a sociedade, e por orientação da Organização Mundial da Saúde e do próprio Presidente dos Estados Unidos (e, oh, WWE Hall of Famer) Donald Trump, deveriam estar quarentenados em casa e evitando aglomerações. Não por menos, lutadores como Roman Reigns e The Miz se recusaram a participar disso. Imagina então você sendo o Drew McIntyre e conseguindo alcançar a glória máxima para um lutador nos tempos atuais: Se tornar WWE Champion vencendo Brock Lesnar no main event da Wrestlemania, numa arena pra ninguém. Quando as pessoas se lembrarem disso daqui 40 anos, sua vitória vai estar num rodapé da lembrança de que o combate aconteceu enquanto 100 ou 200 mil pessoas estarão morrendo nos Estados Unidos devido ao Coronavirus (Em estatísticas anunciadas pelo próprio governo dos Estados Unidos na semana passada).

O alcance à glória eterna para o lutador, enquanto ao mesmo tempo cerca de 100 mil pessoas podem morrer graças ao Coronavirus nos EUA. Foto: WWE.com

Não vou falar que é novidade se decepcionar com a tomada de decisões da WWE quando envolve assuntos polêmicos, e nem que seria uma surpresa ver o Vince McMahon fazendo shows enquanto as pessoas morrem aos milhares nos últimos dias nos EUA, mas é impossível não se desapontar em ver, como fã de Wrestling e ser humano, que a escolha de se realizar um show completamente raso, estranho e feito às coxas, colocando a saúde das pessoas em risco em nome da Wrestlemania mais desnecessária da história.

2 Comentários

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  1. Sem tirar nem por.

    Eu fiquei triste vendo o evento. Sem emoção NENHUMA.

    E como lutador, apesar de carregar o bom e velho “o show tem que continuar”, e entendendo toda a questão financeira e de imagem da empresa que provavelmente levaram o Vince a fazer esse show, fiquei triste ao pensar o que estava passando na cabeça de cada lutador aí. Da pra ver na cara do Drew na hora que ele está “comemorando” sua vitória.

    Boneyard e Firefly Fun House salvaram o que se pode chamar de evento.

    Mas sem o calor humano, sem a alma d aluta livre que é o público, eu realmente não consegui gostar do evento.

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