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Pílulas #2: Ave, Rhodes, pequeno César!

Ave, César! Os que vão morrer te saúdam!


A luta livre tem mais de uma família real, mas cada uma delas exige privilégios. O atual vice-presidente executivo da All Elite Wrestling (AEW), Cody Rhodes, não faz exceção à regra. Desde sua badalada saída da World Wrestling Entertainment em maio de 2016, o auto intitulado “Pesadelo Americano” passou a reivindicar seu trono outrora negado: o card principal.


Após aproximadamente dez anos sendo privado de grandes conquistas, foi no circuito independente que encontrou seus anos mais vitoriosos; entre setembro de 2017 e novembro de 2018, conquistou dois títulos mundiais nas principais empresas alternativas dos Estados Unidos (Ring of Honor e National Wrestling Alliance), além de participar da prestigiosa Batalha de Los Angeles junto à Pro Wrestling Guerilla. Neste redescobrimento na carreira, novos ares sopraram até o leste japonês e o levaram ao encontro do Título IWGP dos Estados Unidos, pela New Japan Pro Wrestling.


Todavia, o ouro ainda não brilhava o bastante na orla do manto real de Cody e ainda lhe faltava o prato principal que lhe fora negado outrora. Vinculado à AEW, e novamente exposto ao circuito televisivo de grande massa, Rhodes se viu envolto em oportunidade e poder criativo para alçar vôo rumo ao topo da divisão masculina, incontestável. Desta vez, o trono seria seu.


Neste ponto, vale a interpelação do caro leitor; ora, como pode um homem querer firmar-se no topo mesmo quando nega fazê-lo? A resposta requer um pouco de malícia na leitura das ações de Cody. No primeiro grande pay-per-view da AEW, foi dele a ideia de levar uma marreta e esmagar uma réplica do trono atribuído à Paul Levesque, simbolizando uma figura ativa dentro do ringue e não apenas imbuído em artimanhas políticas de bastidores; contudo, nunca se negou o fato dos poderes reais, emanados do trono, continuarem sendo-lhe atribuídos. Foi aqui que ele clamou tomar para si o legado da família dos ombros do irmão mais velho, em um emocionante confronto que ameaçou encerrar a carreira de Dustin Rhodes. O símbolo permanece, agora como soberano de sua dinastia.


Novamente, de forma sorrateira, abdica de competir pelo Cinturão Mundial após ser derrotado por Chris Jericho, ludibriando a impressão do público geral de dar um passo atrás e deixar novas estrelas tomarem a dianteira – fato parcialmente corroborado pela construção catártica de sua caçada à MJF, seu antigo pupilo, e pelo fracasso ao enfrentá-lo posteriormente, durante o primeiro Full Gear, em 2019. Contudo, isso apenas lhe deu espaço para tomar posse do cinturão secundário da companhia e transformar seus adversários em derrotados, corpos vagando sem muito rumo.


Jake Roberts, em suas palavras, alertara sobre os perigos da construção do personagem de Rhodes durante esta fase de falsa generosidade em compartilhar os holofotes: “…ó, poderoso César; salve. Eu não quero tudo, apenas a sua parte.”. De forma profética, referenciou os escritos de Suetonio, autor romano do primeiro século, que presenciou grandes feitos da vida dos governadores do império. Ave Caesar, morituri te salutant! Ave, César! Os que vão morrer te saúdam! Foi esse o brado que Lance Archer deu logo antes de ver as luzes, após ser vendido como monstro irremediável. Também foi o mesmo canto entoado por Brodie Lee após ser pilhado do título vencido de forma ilusória, apenas para ocupar o Cinturão enquanto Cody dava seus pulos no mainstream do reality show da televisão americana. O último descarrilado foi Orange Cassidy, fresco da vitória sobre a grande lenda da companhia, sendo duplamente derrotado e se esmagando contra seu teto de vidro.


É importante dizer que o problema de Cody não é vencer; é desconstruir a trajetória de seus desafiantes, que invariavelmente passaram por camadas de elaboração até se tornarem oponentes críveis ao Título TNT, enquanto tenta jogar migalhas de competitividade para não se aparentar tão mal aos olhos do espectador. É sentar no trono sem cerimônias e gozar do privilégio de poder ser rei sobre seus compatriotas, mesmo não tendo sido eleito ou outorgado. É ser César, usar os louros, fumar seu charuto, querer ser adorado.


É preciso criar novos adversários ao homem, possíveis candidatos à benevolência de Cody Rhodes por um lugar de proeminência nos rankings da companhia, e o Cinturão TNT não precisa estar em jogo. Para um verdadeiro soberano, a mera presença no ringue é motivo de celebração e elevação, rumo, caminho reto aos seus colegas de profissão, dependentes um do outro no galgar de consagração. Uma só voz a gritar, a plenos pulmões. Os que vão morrer te saúdam.

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